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Eu fui num lugar...
Não estou plagiando, vou logo avisando. Estou apenas citando o jornalista Marcelo Rios, que ali no Caderno Plural, aos domingos, ou no Caderno Cultura, de segunda a sábado, traz a coluna mais colorida e alegre do jornalismo mineiro, de estética peculiar, entremeada de ângulos inusitados: fotos minimalistas captam detalhes improváveis: o cangote dum, o salto ou sapato doutra, o copo, o arranjo, o chão ou o teto. Ele não só retrata e registra, como acresce, construindo um plano de detalhamento que, via de regra, passa despercebido a quem estava no salão. Portanto, não é cópia, mas citação.
Aliás, aproveitando para tirar as teias de aranha do português, é preciso ressaltar tratar-se duma transcrição; não o estou parafraseando, ao contrário do que é usual e equivocado dizer. Parafrasear é citar a idéia, transmiti-la, mas utilizando outras palavras; serve a quem não se lembra exatamente dos termos que foram ditos e, assim, constrói uma outra frase - a paráfrase - para dizer a mesma coisa. Eu não. Estou usando, ipsis literis, o bordão do Rios; cito-o, preservo seus direitos de autor, sua propriedade intelectual, e sigo com o texto, pois tenho que descrever, afinal, onde é fui, honrando o título.
Fui ao *Ementa de Portugal*, uma casa de vinhos portugueses que o Miguel Dias abriu ali, na Rua Aimorés, 254. Nenhum vinho que já se conhecia: Miguel é português e casou-se com uma mineira, a Mônica, vindo dar com os costados além-mar, nestas montanhas que nos são queridas. Veio para montar aqui a sua casa de vinhos e azeites, a sua bodega, importando bebidas produzidas por pequenas vinículas que estão fora do circuito ocupado pelas grandes empresas. Vinhos de qualidade, como o *Casal da Coelheira*, aveludado e elegante, seja tinta ou branco. É produzido por uma família, numa Quinta de cinqüenta e quatro hectares, localizada na região do Ribatejo, novo horizonte das atenções de bebedores do mundo inteiro. Tem-se, ainda, o *Casa de Vila Verde* que simplesmente mudou o meu conceito de vinho verde. O *Ementa* funciona como uma delikatessem, mas tem mesas e tira-gosto para que os fregueses possam beber ali mesmo; escolhe-se o vinho na prateleira e manda-se abri-lo.
Estava lá, ind'outro dia, acompanhado do sertanista Sérvio Ribeiro - que, às avessas, é mineiro casado com uma portuguesa, a Margarida - bebendo um vinho branco de pequena produção, mas premiado na Europa: *Terraços do Tejo*, que mostra virtudes diferentes a 6 e a 9oC. Comíamos iscas temperadas de bacalhau e fumávamos charutos, que ali não empesteam o ambiente em razão do pé-direito alto. O Miguel se juntou à prosa, trazendo o José Manuel, português do Porto, também casado com uma mineira; estava de visita por Belo Horizonte, mas já voltou ao Douro, onde mantém uma indústria farmacêutica, além de acompanhar o pai que, juiz aposentado, dedica-se à produção de vinhos na Quinta da família. Conversa animada sobre colonialismo português, Salazar e a Revolução dos Cravos. Foi quando, para brindar a noite, o Miguel se meteu na adega lá ficando alguns minutos para, então, nos trazer uma garrafa verde sem rótulo, na qual um cartão fora amarrado ao gargalo.
Pois vou lhes contar, meus amigos, o que trazia aquela garrafa rústica. Tive a chance de provar uma raridade, uma bebida de Reis que, certamente, matará de inveja o amigo Eduardo Almeida, colunista que, aos domingos, se faz em dois nos cadernos plural e Brasília deste Hoje em Dia. Cuidava-se de um vinho branco do Porto, colhido em 1984, deixado em tonel de carvalho até 1992, numa propriedade familiar que não mantém produção comercial. Um vinho fora das prateleiras, pelo qual muitos pagariam uma fortuna: um tawny branco, cor de cobre (mais escuro que um rosé), cheiro e sabor de mel. O próprio néctar dos deuses, para ser bebido em palácios. Um vinho tão espetacular que toda a garrafa se escoou naquela única noite. Inesquecível.
Esse casamento Brasil/Portugal dá sempre um resultado de encantar. É o que, anualmente, com a *Bacalhoado do Rios*, baile pré-carnavalesco organizado pelo colunista Marcelo Rios, de bordão já citado no frontispício da coluna. É o décimo ano da festa, cujo grande destaque é repetir a fórmula clássica dos festejos momescos de outrora, com marchinhas, passistas, confete e serpentina. E, de quebra, uma bacalhoada que, ano após ano, arranca elogios de Deus e o mundo. Será no dia 7 de fevereiro, no Café Cancun, ali na Savassi e, se eu fosse você, não perderia.
Gladston Mamede - Hoje em Dia
Professor do Centro Universitário Newton Paiva
mamede@pandectas.com.br
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